Perda de entes queridos
- Pedim Guimarães
- 17 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de jun. de 2023

E aí, como tão vocês, meus consagrados?
A partida de pessoas queridas atinge a todos, até nossos amigos monges tibetanos passam por isso, afinal eles também são humanos, portanto possuem uma existência finita. Por mais que saibamos que o legado de alguém pode ser imortalizado por meio de suas obras, o corpo físico chega a um fim. Toda partida envolve melancolia, comoção e retrospectiva dos momentos em que se viveu com aquele que deixou o plano terrestre. Sempre.
Se há um paradoxo que nos acompanha: a morte faz parte da vida. Como falei no texto anterior, os estudantes de misticismo consideram que o fim da existência nesse plano significa o início de outro ciclo em outro plano, (daí o termo transição tão falado nos ensinamentos místicos), um plano imaterial onde questões limitantes como tempo e espaço não se aplicam. Cedo em minha jornada aprendi isso, com dez anos perdi um grande amigo meu: papai. Esse fato ocorreu em 1993, alguns dos leitores nem tinham nascido, então, se você faz parte desse grupo, imagina aí que durante toda sua vida, eu senti saudade, todavia não vivo mais um sentimento angustiante, não, hoje sinto uma emoção cheia de ternura. Recordo dos bons momentos com ele e imagino o que eu gostaria de falar para ele, sempre eu penso ao final “vai chegar o dia de nos revermos”. A existência física pode chegar a um fim, porém as pessoas ficam marcadas em nossos corações, vão nos acompanhar por toda nossa jornada.
Há um tabu em especial no ocidente sobre comentar sobre a morte, quando esse assunto chega à tona, logo ouvimos “vira essa boca para lá” ou “Deus me livre, que papo fúnebre”. Sabemos, no entanto, que a vida é frágil, podemos partir a qualquer momento, até por causas inesperadas. Alguns podem pensar que isso constitui em alimentar uma ansiedade. Discordo, pensar assim justifica algumas expressões em latim como “Carpe Diem” e “Memento Mori”, que significa algo como "lembre-se de que você é mortal", "lembre-se de que você vai morrer" ou traduzido literalmente como "lembre-se da morte". Séneca diz:
"Muitos homens se apegam e se agarraram à vida, assim como aqueles que são levados por uma correnteza e se apegam e se agarram a pedras afiadas. A maioria dos homens mínguam e fluem em miséria entre o medo da morte e as dificuldades da vida; eles não estão dispostos a viver, e ainda não sabem como morrer."
Não só nós desconhecemos como morrer, como também isso nos apavora, tanto que, como expus acima, há uma superstição em crer que conversar sobre a morte a atrai, se o universo fosse regido por leis assim, falar sobre prosperidade a atraia, sabemos que meramente proferir palavras não constitui em transformação, ela se firma em três pilares: pensamento, palavra e ação; sim, trabalhar para realizar algo. Esse tema pode ser objeto de textos futuros.
Eu li algumas obras sobre o budismo, o ensinamento que mais acho brilhante é o da impermanência – tudo é transitório, inconstante e tende a acabar. Vejam bem, se é dito tudo, portanto a vida também se insere. Óbvio que uma partida precoce nos abala, uma calamidade, uma tragédia. Sobretudo quando essa partida ocorre por decisão voluntária da pessoa, quando ela decide que não há mais razão para permanecer entre os encarnados. Uma junção destrutiva entre falta de esperança com coragem para encurtar a vida. Quem mais sofre são os que ficam, muitas vezes se culpam por achar que não fizeram o que deviam, ou que foram o gatilho para o ente querido partir, sentem-se autores de um homicídio inexistente. Se você perdeu alguém assim, não é sua culpa, tenho convicção que você fez o que estava a seu alcance para evitar essa calamidade. E se você cogita realizar esse término precoce de sua caminhada, por favor, repense, busque ajuda. Vale a pena viver, garanto a vocês, e digo com propriedade, afinal já estive a beira de completar essa maldade comigo.
Cerca de uns dez anos após a partida do meu pai, um amigo me emprestou um livro encantador: “A Arte da Felicidade – Um Manual para a Vida” escrito por Howard C. Cutler e Dalai Lama. Foi meu primeiro contato com a filosofia budista. Vou colar uma sinopse da obra aqui:
“Baseado em 2.500 anos de meditações budistas mescladas com uma dose saudável de bom senso, A arte da felicidade é um livro que atravessa as fronteiras das tradições para ajudar os leitores a superar as dificuldades comuns a todos os seres humanos. O Dalai-Lama mostra como derrotar a ansiedade, a insegurança, a contrariedade e o desânimo do dia-a-dia. Junto com o Dr. Cutler, explora inúmeras facetas do cotidiano, entre elas os relacionamentos, a perda e a busca da riqueza, mostrando como transpor os obstáculos da vida através de uma fonte profunda e permanente de paz interior.”
Não vou me aprofundar sobre o livro em si, que é belíssimo, só deixar alguns pensamentos que abordados no capítulo “Como encarar o sofrimento”:


Mais à frente Dalai Lama comenta:

É plenamente normal tirar um tempo para curtir o luto da pessoa querida, ou do pet, como falei em outro texto. Não só aceitável, como saudável. Citando Daniel Goleman no livro “Inteligência emocional: A teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente”:
“Uma das principais funções da tristeza é a de propiciar um ajuste a uma grande perda, como a morte ou uma decepção significativa. A tristeza acarreta uma perda de energia e de entusiasmo pelas atividades da vida, em particular por diversões e prazeres. Quando a tristeza é profunda, aproximando-se da depressão, a capacidade metabólica do corpo fica reduzida. Essa retração introspectiva cria a oportunidade para que seja lamentada uma perda ou frustração, para captar suas consequências para a vida e para planejar um recomeço quando a energia retornar. É possível que essa perda de energia tenha tido como objetivo manter os seres humanos vulneráveis em estado de tristeza para que permanecessem perto de casa, onde estariam em maior segurança.”
Então, além de justificada, corresponde a algo intrínseco ao ser humano, um aspecto fisiológico. Tome seu tempo, essa duração apenas você saberá. Quando estiver pronto, passado seu luto, honre a imagem do falecido realizando os desejos dele, como o Dalai Lama sugeriu no fragmento que expus acima. Assim a imagem do finado permanece viva em seu coração, e ele, lá do outro lado, ficará feliz.
Por hoje é só, pessoal, aquele abraço para vocês
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