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Fetiche do momento

  • Foto do escritor: Pedim Guimarães
    Pedim Guimarães
  • 21 de mar. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 29 de dez. de 2022


Prudêncio era uma figura emblemática no bairro, desde que se casou com a Carla era morador da região. Sabiamente aproveitou o período que antecedeu a mudança do regime previdenciário nacional, conseguiu se aposentar relativamente cedo, afinal começou a trabalhar muito cedo, seu pai assinou cedo a carteira profissional do filho. Foi uma jornada exaustiva, apesar de ser uma empresa familiar, Prudêncio sempre se doou muito, tanto que sua mulher e suas filhas o convenceram a “dar entrada nos papeis” por meio de muito choro e frases como “você precisa ver suas filhas crescerem”. Aquilo mexeu com ele, no dia seguinte iniciou o processo.


Os funcionários fizeram uma festa, lógico, um evento repleto de salgadinhos, bolo, refrigerante e muita falsidade. Quem nunca teve que atuar como bajulador, ir apenas para fazer média, mas sua vontade era de estar em outro local, até mesmo trabalhando, uma ocasião assim pode implicar em duas horas improdutivas. A celebração teve tudo o que se espera de uma despedida, cartões, discursos, votos de uma boa aposentadoria (os empregados iriam se livrar de um chefe muito rigoroso, estavam bem mais felizes do que Prudêncio). A única pessoa que transmitiu sinceridade foi seu sucessor, coincidentemente seu filho mais velho, Patrício, fruto de um relacionamento anterior à Carla, bem antes, uma namorada da faculdade chamada Marta. E a fala do filho termina assim:

- Então desejo que a merecida folga que meu pai ocorra com muita paz. Obrigado por tudo, em nome de todos, muito obrigado. – Todos começaram a aplaudir com muito entusiasmo, Patrício possui um perfil mais gentil que o pai, poderia não ser o gestor que a empresa precisa, mas seria o chefe que os funcionários querem. Agora a vez do retirante de discursar.

- Obrigado a todos. Muito obrigado por tudo. – Assim foi o discurso, Prudêncio nunca gostou de muitas palavras, era um homem de ação. Todos voltaram aos poucos a seus serviços, ficaram na sala apenas pai e filho.

- Pai, o senhor sempre trabalhou muito, não deixe essa mente ociosa, arrume um hobby.

- Olha, não sei como será. Pelo menos poderei dar atenção às suas irmãs. Algo que não pude fazer com você.

- Pai, não se culpe, não guardo mágoas, nunca lhe senti ausente. Nas minhas férias adorava vir ao seu trabalho, aqui, logo me apaixonei pela empresa, pelas pessoas e sabia o que queria da vida. O senhor nunca deixou faltar nada pra mim, sempre esteve lá quando podia estar. Obrigado. – Abraçaram-se, Patrício ainda deixou escorrer umas lágrimas, Prudêncio se conteve, ainda era da escola do “homem não chora”.


Os dias se passaram, Prudêncio de fato se aproximou das filhas, todavia elas iam para escola, portanto passava muitas horas do dia sem elas. A mulher tem emprego numa firma de advocacia, rotina puxada. O homem, portanto, possuía muitas horas do dia vagas. Participava ativamente de todos os grupos do WhatsApp, até aquele dos alunos do ensino médio. Lia todos aqueles textos imensos de procedência duvidosa, encaminhava para todos os grupos de que fazia parte, comumente recebia mensagem do tipo: “porra, Prudêncio, isso é notícia falsa” ou “isso não existe”. Ele não sabia o que fazer com tanto tempo.


Em um desses dias entediantes, procurando o que ver na Netflix, sem querer, ele abriu o YouTube, um vídeo recomendado lhe chamou atenção: “Homem pode usar calcinha?!”. Curto, cerca de quatro minutos, entretanto o suficiente para despertar a curiosidade sobre o assunto. Deparou-se com um artigo chamado “Homem de calcinha: eles usam a peça íntima por fetiche ou conforto?”. Desde essa leitura tudo mudou, a vontade de usar essa peça íntima começou a desabrochar no homem austero.

- Como será que eu ficaria? – pensou em voz alta o homem sozinho em sua casa. Não ter a companhia de outras pessoas era novidade para ele, que ficava completamente vestido – camisa, bermuda e cueca – em casa. Traje informal demais para quem estava acostumado a sair de casa pelo menos no estilo “esporte fino”, não raramente vestia paletó e gravata.


A curiosidade aumentava, logo ele seguiu para o quarto, revirou as gavetas de roupas íntimas da mulher em busca do seu Santo Graal: a calcinha que ficasse perfeita nele. Prudêncio nunca havia parado para perceber o acervo da esposa. Havia de todo jeito, aquelas mais largadas, estilo para ficar em casa, outras mais ousadas, dignas de uma noite especial, algumas dessas compradas em lojas de artigos eróticos. Todas as peças ele tocava, cheirava, ensaiava vestir, botava por cima do corpo, não criara coragem para vestir ainda. Em instantes ele já se sentia um especialista no assunto. Uma das calcinhas lhe chamou atenção, era uma peça de renda, vermelha, não muito curta, nem muito grande, na medida certa, perfeita. O coração dele começou a acelerar, adrenalina intensa. Começou a se despir, hesitou um pouco em tirar a cueca, removeu. Pegou a roupa íntima da mulher, olhou por segundos, vestiu vagarosamente, para saborear cada momento dessa nova experiência. Em especial do aperto que sentiu atrás, sim, lá mesmo. E ele estava ali, diante do espelho, admirando seu visual. Pela primeira vez na vida, sentiu-se bonito, estava em paz e pleno.


Começou destarte uma vida dupla, uma identidade secreta que aparecia toda vez em que ele ficava sozinho em casa. A orientação sexual dele não havia mudado, continuava gostando da esposa e de mulheres, com que ele se envolvia apenas na imaginação, afinal na mente ninguém é de ninguém, e ao assistir filme pornô. Prudêncio não encarava isso como fetiche, ele só queria se sentir lindo. Sua autoestima ficou tão elevada que ele criou um perfil no Instagram. Pelo visto outros usuários concordaram com a elegância do homem, em poucos dias estava com 150 mil seguidores. Muitas mensagens pediam fotos, então ele enxergou a possibilidade de ganhar dinheiro, vendia compilações de fotos, apenas em fotos sensuais sem mostrar rosto, nunca poderia revelar a identidade do nosso herói. Além de vender imagens e vídeos com conteúdo erótico leve, Prudêncio criou perfil numa plataforma na qual qualquer pessoa pode criar conteúdo exclusivo e receber dinheiro por isso, o Only Fans. Nosso ousado homem fez um sucesso inesperado.


Numa noite, deitado com sua esposa:

- Eu sei – ela disse do nada.

- Do quê? – reação mais que esperada de Prudêncio.

- Do seu empreendimento.

- As ações? Sim, estão bem rentáveis – ele havia começado um curso de Day Trade, porém nunca entendeu como operar.

- Não precisa mentir, eu sei, eu vi, estamos juntos há quase vinte anos, reconheço cada pedaço do seu corpo.

- Olha, eu posso explicar... – ela botou seu dedo indicador na boca do marido interrompendo a fala dele.

- Shiiiiiiii... E se te falar que sempre tive vontade de lhe vestir assim? Vai – ela se levanta, vai até sua bolsa, pega um pacote – usa essa aqui comprei especialmente para você, veste, amor. – Ele atendeu ao pedido da esposa sem hesitar.


1 Kommentar


Isys Landim
Isys Landim
22. März 2021

Perturbador, porém, não surpresa!

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