Medo
- Pedim Guimarães
- 17 de out. de 2019
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de jul. de 2022

Olhos arregalados, pulsação acelerada, mãos úmidas e geladas, seu corpo está rígido, uma gota de suor escorre pela testa, percorre todo o rosto e chega ao pescoço e daí se perde no corpo. Em silêncio ele reza todas as orações aprendidas no catecismo, quem sabe se tivesse sido um ser humano melhor não estivesse passando por sofrimento tão deplorável. Engraçado que, geralmente, o arrependimento acontece em momentos de angústia.
Ele estava sofrendo nas mãos de um carrasco. Os olhos deste demonstravam uma frieza extrema. Sádico miserável, como alguém podia torturar outro ser humano como se estivesse fatiando um pedaço de pão para fazer um sanduíche, ou desempenhasse uma atividade trivial – como escovar os dentes?
Em um ato quase inconsciente, até mesmo primitivo, a vítima cerra fortemente seus punhos, as falanges forçam a palma da mão quase penetrando nela – seria até capaz de amassar algo muito resistente. E no extremo sul do corpo, os dedos dos pés ciscavam na sola do sapato, entre uns movimentos e outros havia uma contração intensa.
Que agonia! Será que os pecados são pagos durante a vida? Será que Céu e Inferno são meras crenças cristãs? Será que aqui se faz, aqui se paga como dizem alguns? E se existir uma entidade que rege o universo, será que ela seria tão cruel a ponto de conceder um castigo tão severo a quem não errou tanto assim na vida? Há muitos piores por aí.
-Pronto, Senhor Gonçalves, seu tratamento de canal está acabado.
-Mas já? – disfarçando o medo – foi tão rápido assim?
-Volte aqui em seis meses para a revisão, a recepcionista vai ligar para o senhor quando estiver perto.
-Obrigado doutor – estendendo-lhe a mão.
-Até mais, senhor – e aperta-lhe a mão.
E Gonçalves se retira do consultório, ainda trêmulo e com a boca insensível, e esconjura o dentista.
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