A senhora da rua
- Pedim Guimarães
- 29 de out. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de mar. de 2022

-Boa tarde, Dona Maria! – cumprimentava um transeunte.
-Boa tarde, meu filho! – respondia a velha senhora sorrindo e fazendo reverência com a mão. Era assim com todos os que a cumprimentavam. Desde quando? Não se sabe ao certo, tampouco a idade dela. Especulava-se que já beire aos cem anos, quiçá tenha passado dessa marca.
Todo dia Dona Maria levava sua cadeira de balanço para a beira da calçada. O móvel era feito de palha, leve, porém resistente. Sempre acompanhado de duas almofadas: uma para as costas outra para os quadris cujo pano fora costurado pela idosa. Por volta das cinco da tarde começa a arrumar seu local, recolhia-se em torno das dez da noite, passava a maior parte do tempo acompanhada, era bastante simpática, sorridente, sempre disposta a dar conselhos.
A velha senhora sempre se apresentava de modo simples: vestido de pano, sem maiores sofisticações, uma típica roupa das mulheres dessa idade. Calçava sandálias rasteiras de couro, não gostava de saltos, dizia que fazia doer sua coluna. Não gostava de maquiagem, tampouco de tingir seus fios de cabelos, não se envergonhava de mostrar a ação do tempo em sua face.
Sabia-se pouco acerca do passado da velha, apenas era viúva, seus filhos todos moravam em outras cidades, os vizinhos jamais os viram. Sempre foi dona-de-casa, estudou apenas o básico, nunca sequer passou por sua cabeça cursar faculdade. Era uma cozinheira exímia, famosa por seus doces, e bastante habilidosa na costura, confeccionava desde toalhas de mesa a vestidos longos.
Já havia alguns meses desde que começara a se queixar da vida, que nunca havia feito nada muito emocionante – exceto a vez em que sua casa quase explodiu, isso devido a um vazamento de gás e um fósforo – saiam várias lamentações de sua boca, listava tudo o que nunca havia feito de viagens a outras peripécias mais ousadas e até embaraçosas. Os tipos de reações dos ouvintes eram três: os otimistas defendiam que a senhora devia aproveitar o tempo que lhe resta, viver intensamente; os não tão entusiasmados, que a idade da mulher era avançada, o melhor seria descansar e continuar do jeito que ela está; aqueles que não sabiam o que dizer, bem, esses fingiam não escutar ou rapidamente mudavam o rumo da conversa.
Enquanto isso Dona Maria seguia sua vida, ia desempenhando suas atividades cotidianas, contudo sem a mesma euforia de outrora. As lamentações agora ocorriam com mais freqüência, acompanhadas de maior teor emocional. A velha ficava mais triste a cada dia que passava. Aos poucos foi deixando de sair de casa. Isso preocupou bastante os moradores da região. O que estaria acontecendo com a velha? Talvez fosse apenas uma crise da senilidade, logo o assunto deixou de ter destaque nas rodas de conversas.
Alguns dias se passaram, e quanto à Dona Maria? O que acontecera a ela? A dúvida se firmou na vizinhança. Não faltaram especulações sobre a ilustre idosa. Até mesmo as mais absurdas – como ter sido abduzida por seres alienígenas – foram cogitadas. A curiosidade era geral.
Os moradores resolveram descobrir de vez a situação da velha senhora. Combinaram em visitar a velha, prepararam um bolo. O grupo foi à casa de Maria no horário que ela costumava sair para conversar. Tocam a campainha. Nenhuma resposta. Novamente. Resultado igual. Mais uma vez. Nada. Tentaram gritos também. Sem sucesso.
A inquietação foi geral. Pensou-se que a idosa tivesse morrido. Se ela estivesse morta mesmo? O que fazer? Uma multidão não tende a ser o ápice da racionalidade. A idéia sugerida foi entrar e verificar o estado da senhora, todos concordaram sem qualquer objeção. Forçaram a porta com um empurrão coletivo, que veio abaixo após algumas tentativas.
Os curiosos entraram. A casa estava diferente do normal, bagunçada, como se um tornado tivesse passado por ali anteriormente. Roupas espalhadas por todos os cantos, móveis e eletrodomésticos deslocados. Uma desordem incomum para alguém que preza organização, como era do feitio da dona da casa.
Tudo aquilo parecia muito estranho. Os chamados pela dona de casa se perdiam pelo vento. Estaria a velha cochilando? Talvez se lavando? Ou distraída e não percebera a agitação em seu domicílio? Nada, ninguém a achou. O que aconteceu à idosa? Esta pergunta ficou sem uma resposta coerente, apenas havia especulações sobre o assunto. Os otimistas afirmam que ela sumiu, pegou o que precisava e viajou; os pessimistas, ela fora sequestrada e posteriormente assassinada; e há aqueles que não descartam a hipótese da abdução.
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