Airton Monte
- Pedim Guimarães
- 14 de set. de 2019
- 2 min de leitura

Conheci o mestre das crônicas, ah, melhor inserir aspas, afinal nunca o conheci pessoalmente, “conheci”, melhor assim, numa fase de um vestibular, a organizadora escolheu a obra “Moça Com Flor Na Boca”, uma coletânea de crônicas publicadas em jornal.
Sem demora concluí o livro, além de apreciar o gênero, o estilo de Airton Monte convida para a próxima leitura, vez por outra parece que ele conversa conosco, mostra seus problemas, despe-se sem pudor. Muitos temas parecem banais, na verdade o são, entretanto o escritor mostra que pode haver lirismo no cotidiano, embeleza o “sem graça”, afinal os mestres simplificam.
Assinei o jornal que publicava as crônicas de Airton Monte de segunda a sexta, li-as por anos, era a minha sessão favorita do periódico. De tanto que li seus textos sentia-me próximo, como aquele amigo de rede social que lhe cumprimenta vez por outra, acho que dá para ter noção assim. Impressionava-me a capacidade de ele conseguir ter muito material para discorrer. Claro que, muitas vezes, ele justificava os textos pelo pagamento, para “pagar a cervejinha das crianças” na frase dele, vale lembrar que falta de dinheiro compõe a lista de temas recorrentes dele.
Como a vida é cheia de ironias, trabalhei com um rapaz que é filho de um personagem recorrente das crônicas do Airton, um garçom de um bar tradicional de Fortaleza. Confessei minha admiração pelo cronista, sem hesitar o jovem declarou que seria fácil o encontro com o escritor, insistiu que eu fosse ao bar, simples assim. Já havia mostrado meus textos a algumas pessoas, a ideia de mostrar a ele, uma figura inspiradora, embrulhava-me as tripas, bom, adiei o encontro, adiei, adiei...
Tempo passou, tanto que meu colega desistiu do encontro, continuei lendo as crônicas. Eis que um dia o jornal veio sem crônica do Airton Monte – ele deve ter passado algum problema – pensei. No dia seguinte, nada também; até que o jornal publicou a transição do autor para o outro plano, pesquisei, achei interessante mostrar:
“O cronista e médico cearense Airton Monte morreu, na noite dessa segunda-feira (10/09/2012), vítima de câncer. O poeta, que era casado e tinha dois filhos, faleceu em casa, por volta das 20h.”
Entristeci-me bastante com a partida, não leria mais sobre os dias dele, os dilemas e as besteiras interessantes, logo um arrependimento de não ter aproveitado a oportunidade tomou de conta de mim. Sábia a frase da cultura oriental que diz “"Há três coisas na vida que nunca voltam: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.". O consolo é que quem escreve vira imortal por suas obras.
Obrigado, Airton, você se tornou imortal para seus leitores.
Comments