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Dona Josefa

  • Foto do escritor: Pedim Guimarães
    Pedim Guimarães
  • 12 de set. de 2019
  • 4 min de leitura


- Dona Josefa, andou comendo chocolate de novo, né? – briga a médica com a paciente que é velha o bastante para ser sua mãe. Apesar de ser uma repreensão não possuía tom agressivo, pelo contrário, havia ternura na voz. A idosa apenas ria e se balançava na sua cadeira.

- A senhora sabe que chocolate só na páscoa e no natal. Você tem que ter cuidado com sua diabete. – a doutora continuou, porém com mais seriedade.

- Doutora, foram meus netos que deram. – as risadas continuavam assim como o vai-e-vem.

Há dois anos que Tânia cuidava de Josefa. Toda quinta-feira era o dia da visita. Media a pressão arterial da velha, fazia o exame de diabetes e mais alguns procedimentos médicos. Josefa era sempre risonha, passava o dia em sua cadeira de balanço.

- Vou repetir: evite comer chocolate. Andou sentindo algo fora do comum?

- Não, tudo está bem, doutora. – respondia a velha rindo e balançando. A médica sentia um carinho por aquela paciente. Gostava dos encontros semanais que tinham.

- Nada mesmo? Está tudo bem? – não era desconfiança, era apenas cuidado.

- Nada, doutora. – continuava o balanço.

- Já está passando do tempo, ainda tenho outros pacientes para visitar. Então até semana que vem?

- Sim, doutora. Estarei aqui. – ria de novo.

- Até mais.

- Felicidades.


Tânia foi se distanciando, alguns passos até a porta. Observa a velha. Acena para se despedir dela. Ainda havia o resto do dia de trabalho, depois do almoço devia atender vários pacientes. Há alguns tipos recorrentes: os hipocondríacos, para qualquer besteira querem remédios, se espirram, em pouco tempo já estão buscando um antialérgico para tomar; e quando gripam tomam pílulas, pílulas, mais pílulas e algum xarope.


Outro grupo frequente era dos mal-educados. Muitos confundem falta de modos com rispidez. É totalmente plausível agir com grosseria e fineza. Tânia não entende o porquê dessa escassez de modos, tampouco aceita. Alguns pacientes entravam quase aos trotes, com direito a coice na porta do consultório. Ainda havia os lerdos, que perguntam milhares de vezes a mesma coisa – que está escrita na receita médica. Claro que questionar é normalíssimo, repetir é natural, nem sempre a mensagem é entendida com clareza, não se pode querer pleno entendimento na primeira explicação, contudo paciência é limitado.


O almoço estava com cheiro agradável. Tânia, porém, estava sem muito apetite. Recorreu a uma maçã que trouxera de casa. A médica não era gulosa, pelo contrário, a quantidade de suas refeições se assemelhava à de uma criança. Frequentemente era alvo de infâmias, tais como: você come como um pinto, entre outras. Hoje não estava a fim de papear, preferiu almoçar na sua sala mesmo.


O turno da tarde não era tão agitado quanto o da manhã, atendia até, mais ou menos, quatro da tarde. Voltava para casa, seu refúgio, seu amado lar. O bem-estar da família era a recompensa por tudo o que aguentava durante o trabalho. O lado bom do sofrimento é que os momentos alegres parecem mais adocicados. Depois de uma tormenta intensa e arrasadora, o arco-íris se torna mais cintilante.


Todos os dias úteis da semana eram parecidos com esse. As surpresas que aconteciam durante o expediente, na maioria, eram ruins – cobranças, críticas, chateações. Ocasionalmente recebia algum agrado de seus pacientes: uma galinha, uma jaca, um quilo de maçãs... O gesto é o que vale. Essas demonstrações comoviam a doutora.


Os dias foram passando, sem grandes novidades. A única foi um pato que recebeu de um paciente. Tânia não se conteve diante do paciente e riu um pouco. O bicho encheu a barriga da família no almoço de sábado, ainda sobrou o suficiente para não desejarem mais comer aquela carne durante um bom tempo.


Na terça-feira seguinte ao pato, seu dia iniciou com uma notícia perturbadora: dona Josefa falecera.

- Quando foi? – a médica não conseguiu disfarçar o impacto da notícia.

- Foi de madrugada, ainda não sabem a causa com precisão, querem que a senhora complete o laudo médico – com certo desdém respondeu a auxiliar de enfermagem.

Tânia estava sentindo-se desconfortável, um embrulho no estômago. Cada passo era acompanhado de uma vontade de sair dali correndo. Não gostava de mortes. Era uma velha mulher, mas podia ter vivido um pouco mais. Por que tinha que ser assim? É a ordem natural, composta de começo, meio e fim, senão fosse desse jeito seríamos eternos.

Dona Josefa jazia na sala de autópsia. Suas feições não eram aterrorizantes, um quê de paz havia nela. Parecia estar dormindo profundamente, porém desse sono ela jamais despertará, pelo menos não nesse mundo. Tânia ficou tão atordoada com aquilo tudo que nem ouvira as perguntas do colega médico.

- A falecida era sua paciente, doutora? – com toda a discrição possível repetiu.

- Sim, tratava dela há dois anos, pensei que seu quadro estivesse estável.

- Precisamos que assine este documento, conhece o protocolo, não?

- Claro. Doutor, qual a causa da morte?

- Hipoglicemia aguda.

- Doutor, se me permite, devo voltar ao consultório. – assinou o laudo e finalizou a conversa.

- À vontade.


Uma angústia lhe preenchia. Sentia-se sufocada, desabotoou a bata para aliviar. O quanto antes chegasse a sua sala seria melhor. Se dependesse dela iria para casa agora, os filhos poderiam trazer conforto. Como a vida pode ser injusta.

- Raimunda, avise que não vou atender mais pacientes.

- Doutora, ainda há dez para atender.

- Não, entendeu? E pronto. – gentileza habitual dava lugar a agressividade. – e não se preocupe eu aviso a todos. Não vou mais atender hoje, estou me sentindo mal, vou para casa. – ninguém questionou, o tom de voz era ameaçador.

A médica entrou em sua sala e chorou.

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