Doce lembrança
- Pedim Guimarães
- 24 de set. de 2019
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de mar. de 2022

Como todo ser humano (pelo menos creio que todos) sinto saudades, sim, normal, sentimos falta de uma época, objetos e especialmente de pessoas. Há como imortalizar as pessoas por meio dos sentidos, normalmente associa-se uma música a alguém – principalmente quando se trata de gente que partiu seu coração. Quem nunca sentiu um aroma de perfume pela rua e lembrou de um conhecido? Eu tenho um caso um pouco peculiar de reviver na minha mente: uma comida. Aliás, uma guloseima para ser mais específico, sim, leite condensado.
Eu tenho um fraco por doces, por esse sou alucinado, sério, preciso me conter para não consumir tudo quando abro uma lata dele. Você possui algum vício gastronômico? Algo que deve ficar longe do seu alcance, há? Engraçado que “grandes porres da gula” se constituem de comidas simples, dentre os quais cito o meu, já cheguei a consumir uma lata quase de uma vez, isso faz tempo, quando eu ainda era um moço imberbe, desprovido de preocupações da vida adulta.
Leite condensado vai bem com quase tudo. Dá aquele toque especial na salada de frutas, considero a melhor cobertura de sorvete (perde por pouco para o doce de leite, que podemos considerar como derivado do leite condensado). Não, creme de avelã não, ele me parece supervalorizado, desculpe-me, trago verdades, tá, a minha verdade, calma, não precisa me trucidar, é meu gosto, ué. Sim, eu escrevi creme de avelã, afinal chamar todo creme de avelã de Nutella configura metonímia.
Acho difícil achar um leite condensado ruim, provei uns de marcas não tão conhecidas, geralmente gosto, uma vez vi um levemente desgostoso, meio aguado. No mais gosto de quase todos, desde os mais pastosos aos de colher. Que maravilha, que grande invenção do ser humano. Salvo engano há menção ao amor ao leite condensado no belíssimo filme “Paciente Inglês”.
E qual a relação desse néctar dos deuses com alguém do passado? Meu pai adorava, havia sempre uma lata na geladeira de casa, ele fazia dois furos: um maior para sugar, geralmente feito a quatro avançadas do abrir de latas, e um menor, feito com apenas um furo, qual sentido disso? Sorver melhor diretamente da lata; não sei de onde ele teve essa ideia, mas testei essa engenharia dele, olha, funciona, melhora o fluxo bastante. Se quiser, faz o teste e me conta depois.
Eu tenho uma habilidade de pisar suave e respirar lentamente, portanto dá para me aproximar de pessoas sem ser percebido, desde pequeno assim. Numa dessas furtivas caminhadas noturnas (a insônia me acompanha desde o berço), flagrei meu pai realizando uma boquinha na madrugada, o famigerado “assalto a geladeira”, quem é pego fica logo sem jeito, assim ele ficou, logo me repreendeu preventivamente, com razão, afinal dias depois ele que me pegou com a “boca na botija”, tá, era uma lata, quis usar a expressão.
- Meu filho, seu pai faz isso, mas é algo feio, quando for tomar, ponha em uma tigela e use colher, não me imite. – como boa criança escutei, todavia fiquei com aquela vontade de testar o proibido. Na outra vez em que fui flagrado, vários dias e vários goles de leite condensado depois, levei um grito e uma puxada de orelha, nunca mais fiz.
E desde que ele se foi, em cada gole ou colherada de leite de condensado me lembro dele, não do que gritou comigo, mas do que foi terno e compreensivo comigo. E em cada momento que saboreio essa iguaria deslumbrante me bate uma saudade dele. Uma vez vi no supermercado uma lata que já vinha própria para consumir sugando, na mesma hora lembrei dele, “pai, essa aí nem precisa furar”.
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