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Fábula do demônio fofinho e da anjinha furiosa

Foto do escritor: Pedim GuimarãesPedim Guimarães

Esse gênero corresponde a composições literárias que podem ser em prosa ou em verso em que os personagens são animais com predicados humanos. Aí reside a diferença entre gêneros literários semelhantes, como apólogo (cuja principal característica corresponde ao uso de seres inanimados como se imaginar as memórias de um vaso sanitário), alegoria (em que se diz algo além do que está escrito no texto, como o famoso “Mito da Caverna” de Platão e parábola (diferenciada pela presença de uma lição religiosa). E por que optei por usar fábula no título? Acho que esses seres devem se comunicar de uma forma inaudível aos seres humanos, se existem ou não, o objetivo do texto é diverso. Como são seres milenares, eles se comunicarão na segunda pessoal do singular.


A Anjinha estava desempenhando funções da guarda do território dos céus. Ah, devo explicar algo antes, os anjos possuem um plano de cargo e carreiras, são nove níveis subdivididos em 3 grupos (esferas) iguais. Na primeira esfera ficam serafins, querubins e tronos; na segunda ficam domínios, virtudes e autoridades; na terceira ficam principados, arcanjos e anjos.


Anjinha queria subir na hierarquia angelical, fazer carreira celestial, dava tudo de si, até nas tarefas de menor prestígio, como patrulhamento das fronteiras, quando avista um intruso:

- Alto lá, quem és tu? Como ousas transgredir a área de nosso território?

- Bela Anjinha, que honra minha. Vieste meu dia alegrar, perdoa-me já. Esqueci completamente; sou louco, demente. Chamo-me Azazel, outrora cruel. Creia em mim, já fui serafim. Ora ora, baixe seu bastão, dê-me logo um sermão...

- Pare. Parece-me que és um dos caídos, aquele grupo liderado por aquele que diziam ser portador da luz, depois mostrou a faceta da soberba.

- Pelo visto sou famoso, meu passado vergonhoso. Infelizmente não há como apagar, os fatos que passaram já. Difícil fantasma de exorcizar, que teima em atormentar. E quanto mais tempo passa, pior fica esta desgraça. Quem não deseja esquecer / e assim poder viver. Superar as tristes memórias; venha vida, com suas glórias; para isso volto para onde fui feliz, daí ter tudo que sempre quis. Permita-me voltar a este lugar aprazível, por favor, estou muito sensível. Dize-me, bela alada, minha perna cansada; lateja de dor, posso entrar, por favor?

- Azazel, começaste a me comover, dize-me, o que queres ao ingressar nos domínios dos anjos?

- Achei que vivi em vão, fiz parte desse panteão; achei que fiz justiça, me meti em carniça. De uns atos me arrependo e ainda me surpreendo, como pudemos liderar uma revolução; daí, perder espaço na ação; na derrota nasceu o inferno; com aquele fogo interno. O soberano de lá se perdeu, o poder o enlouqueceu. A revolução perdeu o esplendor, então começou o dissabor. Percebi que fiz a escolha errada, me arrependi da trapalhada. Vim pedir ao Teu Poderoso, com Seu perdão esplendoroso, possa aliviar minha dor; para assim eu viver o amor.

- Demônio, permitirei teu ingresso, em nossas terras sagradas, vá e alivia tua alma junto ao trono do Pai Celestial. – e assim o ser das trevas percorreu livremente até se encontrar um serafim acompanhado de vários seres celestes, havia pelo menos três membros de cada categoria, e um número considerável de anjos e arcanjos, na verdade eram a maioria. Ao avistar o demônio, o Serafim o abordou:

- Como ousas ingressar nesta terra sagrada, companheiro daquele que caiu do lado esquerdo de Nosso Senhor?

- Digno Serafim, olhe para mim; arrependo-me do dia nefasto, de cuja lembrança me afasto; aquele dia de guerra com os teus, o dia em que neguei Deus...

- Deixai de circunlóquios! Querubins, organizem seus tronos para atuar como guardiões; oficiais intermediários – domínios, virtudes e autoridades; organizem sua linha de frente para o combate contra este invasor. Principados, organizem os arcanjos e anjos para cumprirem com sua missão.

- Digno Serafim... – o nobre espírito maligno recebeu uma perfurada de um anjo recém ingresso na ordem celestial; por acidente, enquanto tentava trazer sua espada para a bainha, recebeu um empurrão.

Assim termina nossa melancólica história. Aqui cabe uma reflexão sobre as pessoas tentarem mudar, não receberem credibilidade devido ao passado sombrio. Nem sempre as pessoas queridas por você, em especial aquelas que você tem como exemplo, vão acreditar na sua mudança. O acidente do anjo, bom, representa que nem sempre temos a intenção de magoar, às vezes é até o oposto, aí residem os golpes mais fatais. E deixo o questionamento: você é anjo, demônio, empurrão ou Serafim?

 
 
 

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