top of page

Gerente regional

Foto do escritor: Pedim GuimarãesPedim Guimarães

Teobaldo Rodrigues trabalhava como gerente de uma firma, estava no cargo há cerca de cinco anos. Sempre tido por seus superiores como funcionário exemplar. Começou a trabalhar muito jovem no comércio de seu pai, Seu Astolfo Rodrigues, um homem sério, sisudo, porém deveras educado, era muito formal em suas palavras, muito eloquente, sempre se apresentava com nome e sobrenome a quem lhe perguntasse. Seu filho absorveu a rigidez do comerciante, que cobrava produtividade de seus funcionários.


Ao atingir a maioridade, Teobaldo Rodrigues foi contratado por uma grande empresa de sua cidade. Começou em cargo de menor expressividade, porém desempenhava suas atividades com muito zelo, logo conseguiu promoções dentro do quadro da organização, até que chegou à gerência regional. O evento da ascensão de cargo contou com a participação dos presidentes da instituição. Houve a entrega de uma placa pelos anos de serviço dedicados à empresa: mais de vinte. Foi muito aplaudido, apesar de serem ouvidos a baixa voz os comentários lá pelo fundo do auditório:

- Babão safado!

- Esse aí parece que não tem família, até em final de semana vem pra cá.

- Me falaram que no Natal ele veio aqui.

- Não duvido.

- Será que é corno?

- Provavelmente - comentavam dois subordinados de Teobaldo Rodrigues. Após entregar a placa, os presidentes e os donos conversavam entre si:

- Esse é um exemplar funcionário…

- Ô, demais! E dessa forma que ele trabalha, a gente se despreocupa, ele pressiona os caras mesmo, não tem pena.

- E muito polido. Sempre nos trata bem.

- Soube que alguns invejosos o apelidaram de babão.

- Convenhamos que ele é.

- É… - mais ao centro do evento, mais comentários sobre Teobaldo Rodrigues:

- Ah, carniça…

- Aí é lixo mesmo - assim falaram colegas gerentes, porém em nível abaixo do promovido. O zelador varia e balançava a cabeça em sinal tímido de desaprovação, outro gesto foi a entoação de som imitando flatulência.




Os anos se passaram, Teobaldo Rodrigues sempre era elogiado pelos superiores, não muito queridos pelos pares e odiado pela maioria dos subordinados e prestadores de serviços gerais, de quem o gerente regional sempre reclamava:

- Olha como isso está imundo! - Disse ao funcionário que emitiu a onomatopeia de gás traseiro.

- Desculpe, é que…

- Nada de “é que”! Faça seu trabalho direito, rapaz.

- Mas, Seu Teobaldo…

- Teobaldo Rodrigues! - Corrigiu, virou-se e saiu. Mais uma vez a balançada de cabeça e o som peculiar e uma careta, sem testemunhas, portanto existiu apenas para o zelador.


Eis que um dia, apareceu um estagiário, rapaz novo, bonito, com um trejeito que popularmente se denomina de “largado”, de fala arrastada, andar lento, essa velocidade também era notada no cumprimento de suas obrigações laborais, o que já despertou a antipatia de Teobaldo Rodrigues, que não deixava de cobrar, afinal…

- Meu jovem, por favor, esse documento tem urgência.

- Pode deixar, meu chefe – respondeu com um sorriso que foi entendido com sarcástico pelo seu superior.

- Fico no aguardo – disse em tom firme, seguiu para seu escritório. O documento não tinha urgência. Teobaldo Rodrigues gostava de se adiantar nas obrigações, buscava concluí-las antes do prazo estabelecido. Ao entregar, citava que pressionava os funcionários para finalizar logo, no início da sua gestão era elogiado, com o tempo se tornou algo comum, que era validado apenas com um sinal de afirmativo executado com a cabeça pelos seus superiores.


O pedido não chegou no momento solicitado, nem nas duas horas seguintes, Teobaldo Rodrigues começou a bufar, não se conteve de raiva, disparou rumo à sala do estagiário, não o encontrou. Andou pela empresa, perguntou a quem via sobre o paradeiro do rapaz, ninguém respondeu, o que era comum, afinal não era raro os funcionários encobrir uns aos outros. Os minutos passaram, perto de completar uma hora de busca, Teobaldo Rodrigues se deparou com o responsável pela limpeza do local.

- Zé, você viu o estagiário novato?

- Acho que tá na sala da Rita, Seu Teobaldo Rodrigues

- Rita? Aquela grávida que foi demitida há uns dias?

- Isso, ela, Seu Teobaldo Rodrigues.

- Certo, muito obrigado - saiu a passos acelerados, não percebeu que Zé havia balançado a cabeça e proferido o famigerado efeito sonoro.




Teobaldo Rodrigues chegou ao destino, sem hesitar deu um tapa na porta da sala para abrí-la, elevando o tom de voz, disse:

- Você não tem compromisso? - Mal terminou de pronunciar, viu o alvo de sua caçada de calças abaixadas acompanhado do presidente sênior da empresa ajoelhado com a boca… digamos que na botija. Teobaldo Rodrigues ficou catatônico ao flagrar tal cena. Os dois logo se ajeitaram.

- Teobaldo Rodrigues, o que faz aqui? - O presidente lhe dirigiu a pergunta seriamente.

- Eu, eu, eu… - gaguejou Teobaldo Rodrigues – eu estava procurando esse rapaz e…

- E o quê? Você não viu coisa alguma. Tenho uma família, eles não podem saber disso, nem o pessoal daqui.

- Pode deixar, senhor, não falarei.

- Não, não vai, aliás, pensando aqui, achou que demitir você.

- Mas, senhor, são quase trinta anos de casa.

- E eu com isso? Não vou arriscar, como você não é querido aqui, se você comentar com alguém sobre isso pensarão que é raiva pela demissão.

- Mas, senhor, eu…

- Saia daqui agora. Pegue suas coisas, suma da minha frente. - Cabisbaixo Teobaldo Rodrigues seguiu para sua sala, nada falou, arrumou suas coisas.

- Seu Teobaldo Rodrigues, o senhor se aposentou? Nada disse, a gente faria uma festa –comentou a supervisora do setor financeiro.

- Fui demitido.

- Sinto muito – a mulher falou em tom consolador – o senhor poderia dar entrada na aposentadoria. - Aconselhou sem perguntar o motivo da saída ainda.

- É, vou ver isso.

- Qual motivo?

- Olha, prefiro não falar - Teobaldo Rodrigues honrava sua palavra, apesar de poder expor o ex-chefe, nada fez.

- Tudo bem, Seu Teobaldo Rodrigues, boa sorte, tudo de bom – acenou com a cabeça para ele e saiu. Ela como outros tantos não apreciava a companhia dele.




Teobaldo Rodrigues caminhou pela empresa pela última vez, as reações dos funcionários foram semelhantes ao da supervisora financeira. Exceto uma pessoa, Zé continuou varrendo o chão, sem levantar a cabeça viu o desafeto sair, fechar a porta da empresa e seguir para seu carro. O faxineiro balançou afirmativamente dessa vez e emitiu o famigerado som.


Teobaldo Rodrigues conseguiu se aposentar, já tinha tempo de sobra. Vivia entediado, não conversava muito com seus familiares, mal conviveu com eles nesses anos, era comum fazer hora extra. Seus filhos pareciam um tanto incomodados com a presença paterna. Quem ficou mais inconformada foi sua esposa, pois teve que terminar seu relacionamento com Zé, que não previu a demissão de Teobaldo Rodrigues ao indicar a sala onde ocorreu o fato gerador da saída repentina do gerente regional, esperava apenas que o recém aposentado fosse transferido para uma cidade mais longe, assim poderia ficar mais tempo com sua amada e seus filhos. Sim, Zé é o pai deles.


 
 
 

Comments


bottom of page