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Histórias e Estórias

  • Foto do escritor: Pedim Guimarães
    Pedim Guimarães
  • 29 de set. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 17 de mar. de 2022


Histórias e Estórias


E que atire a primeira pedra quem nunca mentiu! Não há um membro de nossa espécie que seja sempre fiel à verdade. Impossível. Creio que até os ditos iluminados pela força cósmica, avatares, atentaram contra a veracidade alguma vez. Como dizem: errar é humano, mentir mais ainda. Esse verbo adquiriu conotação marginal, alcançando até status de pecado, crime.


Contudo, há diversas categorias de atentados ao verossímil, vamos nos ater quanto à índole: boas, más (que nem precisam de comentários) e indiferentes – apenas para enganar o ouvinte. Todos mentem (óbvio, assim como todos respiram, alimentam-se e dorme), mas há os aficionados em contar uma boa lorota: os mentirosos compulsivos. Devia haver uma instituição para tratar desse tipo de viciado.


Dissimular bem é uma arte, necessita-se de uma técnica refinada para lograr sucesso nas histórias extraordinárias, sobretudo faz-se mister crer naquilo que se conta, tomar como verdade absoluta, irritar-se com aquele que duvida do “fato” descrito.

- Foi assim mesmo?

- Você acha que eu mentiria? Você viu? Não, mas eu sim. Fique calado que é melhor.


Dizem que os melhores mestres da arte são os anciões, os anos aprimoram o estilo. Os aposentados estavam reunidos à sombra de uma árvore em uma praça qualquer. Por acaso, havia mentirosos, que são competitivos, querem que suas histórias (estórias) sejam as melhores. Estavam conversando sobre quando eram joviais, fortes como um touro, saudáveis. A hora de lembranças é propícia para os adictos da arte que possui pernas curtas.

- Voltei minha mente agora para meus tempos de meninote serelepe. Como sabem, não provenho desta belíssima capital, sou oriundo de uma pequena cidade do interior deste belo estado do Ceará, a qual na época nem município era, minha terra natal chama-se Guaramiranga. Meu pai era dono de algumas propriedades rurais de médio porte, minha família comercializava frutas e, ressalto, muito boas, eram conhecidas por seu porte colossal. Não é exagero, era comum, quando brincávamos de esconder, eu usar como esconderijo uma melancia, sim, eu me ocultava por trás de melancias.

- Verdade? – pergunta o que estava do lado.

- Grandes assim mesmo? – indaga outro.

- Sim, e é por que nem contei do tamanho das maçãs...

- Meu amigo, – interrompeu mais um elemento da conversa – não duvido da sua palavra, acho que ali é uma terra cujo solo dá suporte ao crescimento de vegetais imensos, mas – essa conjunção é cruel – uma vez, eu fui visitar um primo meu lá em Santana...

- De Acaraú?

- Não, do Cariri mesmo. Dizem que lá é quente, que até o coisa-ruim – faz o sinal da cruz e os outros o imitam – abana-se. Impossível é repousar sem ventiladores. Estava lá eu a dormir tranquilamente, eis que, lá por volta das três da manhã, sinto um calor incomodante, virei para ver se faltara energia elétrica. Que nada, o ventilador parou, sabem por quê?

- Não.

- Nem eu, diga aí.

- Prestem atenção, havia uma muriçoca pairando sobre uma das hélices e não permitia que o aparelho desempenhasse seu trabalho. Ela era do tamanho de uma bola de tênis.

- Grande mesmo.

- Por isso não duvido do relato anterior ao meu, nosso interior possui coisas inexplicáveis...

- Nem fale em interior, lembro do meu Canindé, terra boa, jogava muito futebol lá, fiz parte da seleção da cidade. Fomos campeões do estado, joguei de ponta-esquerda. Driblava e fazia gols. Até joguei pelo Ceará, fui o maior artilheiro do ano... Joguei ainda um ano pelo Fluminense, até fui adversário do Garrincha uma vez, ele me pediu para ensinar uns movimentos.

- Nossa...

- Rapaz, eu não me lembro de fazerem alusão a seus feitos na época.

- Problemas de contrato. Desde daquele tempo.

- Por falar em interior, agora me lembrei de maus bocados que passei. Estava a transitar pela serra da Meruoca, dirigia uma Rural, carro bom, pouco nos deixa na mão, tinha que fazer uma entrega em Tianguá. Eis que estava a descer a serra, o carro começa a acelerar bastante, aciono os freios, nada. “Agora?!” pensei desesperado na hora. Tive a ideia de puxar o freio de mão, a força foi tamanha que a alavanca veio em minha mão. A angústia tomou conta de mim, não sabia o que fazer. De súbito algo veio, uma ação milagrosa, como um comunicado dos céus. Com os punhos, golpeio o painel do carro, quebrei a barreira entre mim e velocímetro. Adivinha o que fiz? Com estas mãos eu, que fui abençoado com a força hercúlea desde menino, uso os dedos para tocar o velocímetro até fazê-lo ir contra seu curso natural, pois é, reduzi a velocidade à zero. Parece até mentira.

Apenas parece.


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