
Bom… eu gosto, na verdade um bocado até. Fiquei curioso após ser citada em diversas revistas direcionadas para o “rock”, porém naquela época não havia tanta disponibilidade de conteúdo. Hoje há disponível de forma gratuita as discografias de grandes bandas, naquela época a gente economizava para comprar os CD 's, que não eram baratos, diga-se. Uma fonte bacana de conhecimento de hard rock, gênero da banda, era um programa da MTV chamado “Fúria”, passava clipes de hard rock e heavy metal, vez por outra havia especial de algum grupo ou artista solo, os vídeos seriam apenas dos homenageados. E um dos especiais foi do KISS, apresentado pelo Stanley, o cara da estrela, fiquei vidrado! De cara não entendi a má fama dos músicos, comentavam que eram todos satanistas, que sacrificavam animais em seus shows, achei sem sentido, afinal as músicas que ouvi, não foram poucas, não falam sobre satanismo, ou do mal em si, na verdade eu vejo o oposto, mas... bom, talvez essa seja um dos motivos pelos quais a banda alavancou em vendas, não apenas de álbuns, ou ingressos de shows, mas também em diversos souvenires: pôsteres, lancheiras, fotos, radinhos de pilha, revistas, máquinas de fliperama, bottons, adesivos, carrinhos de brinquedo, jogos, quebra-cabeças, chaveiros, fósforos, gargantilhas, moedas comemorativas e cartões postais. Como esse fenômeno começou?

KISS iniciou suas atividades no início dos anos setenta do século passado (nossa, como tô velho!), em 1973 para ser mais exato. Um motorista de táxi, Stanley Harvey Eisen, juntou-se a um professor de inglês vindo de Israel, Chaim Weitz (que depois mudaria o nome para Eugene Klein), para formar uma banda. Após algumas tentativas, decidiram agrupar uma superbanda, primeiramente adotaram os pseudônimos Paul Stanley e Gene Simmons. A banda já tinha um guitarrista, que não sabia solar, e um baixista, ambos dividiriam os vocais nas músicas. Para completar, necessitavam de um baterista e outro guitarrista, para solar. Hoje, quando alguém precisa de alguma ajuda recorre às redes sociais, naquela época, há quase cinquenta anos, a estratégia era publicar anúncios em jornais, assim fizeram. Destarte chegou Peter Criscuola III em busca da vaga das baquetas, Gene Simmons percebe que o rapaz estava alinhado, bem arrumado, e pergunta: "Se num show a gente lhe pedir para ir fantasiado de mulher, você vai?", Peter responde que sim e ganha o lugar na banda. O rapaz estiloso passa a usar o nome Peter Criss. Restava uma vaga: guitarrista solo. Muitos candidatos se inscreveram para a audição. Um rapaz destrambelhado furou a fila, na cara de pau mesmo. Gene chegou a pensar que era um mendigo. Como o maltrapilho estava com uma guitarra, perceberam que era mais um candidato para a vaga. Paul disse que ele deveria aguardar a vez dele, o desarrumado se desculpou e foi para o lugar que deveria ocupar. Quando chegou a vez do desajeitado, os membros ficaram impressionados com habilidade, ganhou a vaga. Paul Daniel Frehley é o nome da fera, como já havia um Paul na banda, o Stanley, Paul Daniel Frehley adotou a alcunha de Ace Frehley.
E o nome? Pois é, não tinham, então se inspiraram num concurso da cidade em que residiam, Nova Iorque. Era uma competição entre casais para ver qual passava mais tempo se beijando, beijo, KISS. Na época em que comecei a ouvir a banda, ouvi algumas teorias acerca do nome, que seriam uma sigla para uma dessas opções: "Knights in Satan's Service" – cavaleiros a serviço de Satã, "Kinder SS", ou "Kids in Satan's Service" – crianças a serviço de Satã. Pelo que a gente vê, o tinhoso alavanca vendas, alguns artistas que ligaram a ele: AC/DC, Led Zeppelin, Alice Cooper, Bob Dylan, XUXA, Fofão, Raul Seixas, Lady Gaga, Anitta (pois é, ela entrou no rol). O irônico é que há gêneros musicais destinados a reverenciar o chifrudo, por sinal não são famosos, parece até uma falta de gratidão do soberano do inferno.
Voltando ao KISS. Os membros adotaram maquiagens baseadas na personalidade de cada um. Gene Simmons adora filme de terror, assumiu uma maquiagem para deixar com cara de malvado, assim foi criado “The Demon” – o demônio (pode até ser por isso que falavam do pacto, não é?) Bom, Gene tem sua fé, ele é praticante do judaísmo, o nome adotado é meramente performático. Paul pintou uma estrela em seu olho direito pois sonhava em ser um astro do rock, assim nasceu o “Starchild” – criança da estrela. Ace concebeu sua maquiagem baseada no espaço sideral e numa estética futurista por ser uma pessoa "aérea", dispersiva, então foi concebido “Space Ace” – ás do espaço. Por sua adoração aos felinos, Peter adotou uma imagem de homem-gato, acredita ainda que tenha sido um gato em outras encarnações, eis “The Catman” – homem gato. – Fonte aqui

As apresentações buscaram impressionar o público desde começo, Gene com sua língua enorme (ele removeu cirurgicamente o “freio”), suas cuspidas de fogo e se lambuzar com sangue (falso, por favor); Paul com seus saltos animados; Ace com seus solos marcantes, que influenciaram diversos guitarristas; Peter... bom, é baterista com maquiagem de gato.
KISS mostrou a ousadia quando marcaram um grande show em que abririam para uma banda famosa da época, Brats. O quarteto maquiado enviou convites para a imprensa. Não parou aí, mesmo com dívidas até a tampa, alugaram uma limusine para chegar no estilo ao evento, como um grupo consolidado. Os jornalistas se levaram pela jogada. Outra manobra interessante foi botar caixas de papelão pintadas imitando serem amplificadores como se fossem de uma marca famosa – cada caixa, na época, era seiscentos dólares.
A identidade dos membros foi preservada por uma década aproximadamente. Fotografar um membro de rosto limpo era um desafio. Havia um esquema de segurança para preservar a identidade secreta dos músicos. Isso já contribui para trazer um quê de heróis ao grupo. Aliás, os super-heróis serviram de uma das inspirações para compor o visual, outra foi o teatro kabuki. Ah, o KISS não se inspirou no grupo brasileiro Secos e Molhados. Essa polêmica reacendeu após uma declaração do Ney Matogrosso, essa história você pode conferir aqui e aqui.
Nos anos 1970, o KISS ganhou muita notoriedade, tanto que até tentaram emplacar um filme, “Kiss contra o Fantasma do Parque”, foi um fracasso, mas tudo bem, tentaram. No filme eles exploram a temática de serem heróis com poderes sobre-humanos. Sobre o filme, eis uma declaração do Paul Stanley: “Acolho-o como a um filho feio. É preciso levar em conta que não sabíamos nada sobre os aspectos técnicos de um filme. Venderam-nos a ideia de que seria um cruzamento entre ‘A Hard Day’s Night’ (primeiro filme dos Beatles) e ‘Star Wars’. Claro que o resultado final não foi nada nem perto disso.”

Nos 1980 a máscara deles caiu. 1983 na MTV a banda lançou Lick it Up, canção que consta no álbum homônimo. Os shows repletos de pirotecnia deram lugar à música, eles mostraram que são músicos além da performance circense. Com os desentendimentos internos, Peter e Ace saíram do grupo, Eric Carr (bateria) e Vinnie Vincent (guitarra solo) entraram na banda. Gene foi o que mais sentiu o baque de tocar de cara limpa, pois já havia incorporado seu personagem macabro ao modo como conduzia suas apresentações, sem maquiagem ele parecia bastante desconfortável.

E durante um tempo a banda se focou mais na música, com seus altos e baixos, até que em 1996 lançou um álbum acústico, com seus dois novos membros, não tão novos, já estavam há um tempo no grupo, são eles: Eric Singer (bateria), em substituição a morte prematura de Eric Carr, e Bruce Kulick (guitarra solo), Vinnie teve problemas com Paul e Gene. E veio o álbum acústico, com participação dos membros originais: Peter Criss e Ace Frehley. Foi um dos trabalhos mais sinceros da banda, sem fumaça e fogos, apenas instrumentos sem distorção e voz. O álbum foi um sucesso de crítica, o que trouxe o KISS de volta aos holofotes.

A reunião foi proveitosa, tanto a ponto de os membros originais voltarem, o resultado veio no álbum “Psycho Circus“, porém a gravação do álbum já teve problemas, tanto que em algumas faixas a bateria e a guitarra solo foram executadas por outros músicos: Tommy Thayer (guitarra) e Kevin Valentine (bateria). A reunião, portanto, durou pouco.

E nessa época o KISS tentou emplacar no cinema mais uma vez com o filme “Detroit Rock City”. Foi um fiasco, não apenas de bilheteria e crítica, mas também serviu para acentuar as diferenças entre Ace e Peter contra Paul e Gene. O prejuízo do filme os levou a planejarem uma turnê de despedida, falsa diga-se.


Em 2015 a banda lançou outro filme, dessa vez com o Scooby Doo, sim, um longa-metragem animado com a galera do famoso cão e seu parceiro Salsicha. Dessa vez acertaram a mão

Bom, a banda se mantém como uma das mais influentes no hard rock, com muitos álbuns vendidos – bugigangas diversas também. É uma prova de ousadia no marketing. Foram com tudo para agarrar a oportunidade de entrar para o showbiz, conseguiram. Apostaram alto no sonho deles, às vezes até de forma imprudente, acreditaram no potencial e não desistiram. Eis uma lição. Ah, se quiser saber mais, confere aqui e aqui
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