Maternidade
- Pedim Guimarães
- 20 de out. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de mar. de 2022

O sol ainda não raiara quando a chave girava pelo trinco da porta. A noite não fora das piores, contudo existiu. A sandália é retirada dos pés, o barulho do salto alto batendo no chão pode acordar os pequenos, apesar de não parecer que um barulho como esse fosse acordá-los, mas melhor não arriscar. Sono de criança é algo sagrado, devem-se respeitar as horas de repouso dela.
Antes de chegar ao quarto ela se despe, dobra as roupas com delicadeza. Já que não estão sujas podem ser aproveitadas em outra ocasião. Talvez daqui a uns dois dias? Melhor três, ser vista com a mesma roupa em curto espaço de tempo pode ser prejudicial à imagem. Quatro dias então. Procura uma roupa para dormir, algo confortável. Parece que o cansaço – assim como fome e outras deficiências fisiológicas – dificulta a busca por algo. Ah, estava no sofá. Ela põe o traje e adormece.
Rápidos passos se aproximam. Apesar da velocidade mal faziam barulho. Dois pequenos corpos se arremessam sobre a cama. Buscam pela adormecida, engatinham pelo colchão, cada movimento deles puxa o lençol, que deixa a sonolenta descoberta. Os dois se jogam por cima da recém-acordada.
-Mamãe – brada a maior. O outro apenas balbucia algo inteligível (como é normal na idade de aprender a falar). A moça desiste de dormir.
O mau-humor matinal se manifesta por apenas alguns segundos, logo dá lugar a uma alegria que transborda em um sorriso sincero e um olhar com ternura maternal. Os braços dela envolvem os pequeninos. Um beijo para cada um. Estar com eles era um momento de felicidade, sentia-se viva e necessária. Sempre vinha uma pergunta a sua mente: como podia amar tanto essas criaturinhas? Há perguntas que não carecem de respostas, aliás, há indagações que nem necessitam serem formuladas. Buscar o sentido nas coisas pode estragar a magia do mistério.
Ela sabia que os filhos ainda não se tinham alimentado. Embora estivesse muito agradável, precisa ir à cozinha e preparar algo para as crianças. Com toda a delicadeza inerente às mães ela se levanta e leva-os consigo.
-Vocês fiquem sentadinhos aqui que vou fazer o mingau. – A maior bate as palmas abertas e grita “oba”, o menor apenas saltita.
O fósforo é riscado. A válvula do gás se abre. O som da colher de pau tocando o fundo da panela contagia a casa. Uma parte do conteúdo vai para uma mamadeira, a outra para uma tigela. A mais velha já havia aprendido a comer sozinha, era inteligente; o outro ainda nem conseguia andar direito, movia-se como um bêbado, acontece com todos, os primeiros passos são desengonçados. Talvez seja a fase mais linda de se acompanhar o desenvolvimento do ser humano. Ela também prepara seu desjejum.
Como os meninos ainda não estão na idade de freqüentar a escola, passam o dia em casa. Por isso ela passa o dia se divertindo com eles. Às vezes, esquecia-se do papel de mãe e assumia um de criança – até mesmo não fazia muito tempo que fora uma – brincava como se não tivesse obrigações. A única pausa era depois do almoço, que ela aproveitava o sono dos filhos para repor o seu.
Geralmente ela acordava antes, crianças tendem a dormir bastante, eles não eram exceção. Aproveitava para ajeitar o que iria precisar antes de sair. Não era muito o que fazia, mas servia para poupar tempo. Ela odiava ter que trabalhar. Dava-lhe angústia ter que sair toda noite para ganhar dinheiro. Sentia nojo de si em algumas ocasiões, vinha o pensamento de largar essa vida. Ela se lembra dos amados filhos – por eles o impossível se torna palpável – e recobra suas forças para continuar.
Apesar de não ser um emprego digno, era sua oportunidade mais rentável. Não completara o ensino fundamental, faltava apenas um ano, todavia não pode completar os estudos. Foi expulsa de casa por sua própria mãe, nunca o relacionamento das duas foi amigável, com a vinda da primeira filha a situação piorou. Não contou com nenhuma ajuda, alguns homens são ardilosos, quando querem algo são dissimulados; entretanto, quando se trata de arcar com as consequências, fogem, covardes. Sem qualquer apoio ela foi morar com uma amiga.
O começo ainda não era tão difícil, arranjou um emprego medíocre, porém era suficiente para pagar as despesas. E o tempo foi passando, a neném foi crescendo. E sua mãe foi se sentindo sozinha, ansiava por um companheiro. Alguém para compartilhar sua vida. Achou. Ela o achava maravilhoso, além de incrivelmente belo, a paixão leva a idealizar. A moça o amou, foi intenso.
Todos nós estamos sujeitos a fatalidades, não foi diferente com o casal. Foram presenteados com um filho. O rapaz nada ficou satisfeito com a bênção da vida, irritou-se. Culpava sua namorada por isso. Ela negava, o que o desagradava. Era mais um covarde. Sumiu. O único presente deixado foi um conjunto de hematomas para sua companheira. Grande sorte teve o ser carregado no ventre, nada sofreu.
Foi chegando o dia do nascimento. Em desespero ela ainda pediu um aumento a seu chefe. Foi negado. Ainda recebeu uma contraproposta: realizar alguns favores para ele em troca de uma gratificação mensal. Ela o odiou por isso, pediu demissão. Ainda foi ao tribunal requerer seus direitos trabalhistas em vão. Como era pobre não podia pagar um advogado, vitória para o abastado chefe.
Buscou emprego em diversos locais, nada conseguiu. Ou a remuneração era baixa ou recebia negação. O desespero era constante. Muitas vezes ela chorava durante o banho, as lágrimas eram acompanhadas de golpes na parede. Até que um dia uma idéia lhe ocorreu: decidiu ligar para o ex-chefe e aceitar o pedido. Ele não queria empregá-la novamente.
-Podemos fazer: o dinheiro que ia te dar de gratificação posso te pagar por uma noite com você, que tal? – o tom de voz era nojento, ela titubeou, sem escolhas aceitou.
Depois do chefe vieram outros, e depois desses mais alguns e não param mais de chegar. Toda noite era assim. As crianças dormiam cedo, logo após elas adormecerem, ela sai. Não é capaz de se despedir dos filhos e ir trabalhar. Quando a tristeza parece se aproximar, ela se lembra deles. Mesmo assim ainda é comum uma lágrima escorrer-lhe pela face.
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