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Os meninos do Titanzinho

  • Foto do escritor: Pedim Guimarães
    Pedim Guimarães
  • 27 de mar. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 28 de jun. de 2021


Os meninos do Titanzinho


Antes de começar o diálogo propriamente dito convém explicar algo, esse título merece dois pontos de atenção. O primeiro quanto ao termo meninos, que entre si se chama de Vetinho, Vetim, Vete, formas reduzidas pejorativas de Pivetinho ou Pivetim (conforme região), ou seja, é uma palavra usada entre eles. Termo usado para definir jovem de comunidade sensível, alguns recebem o estereótipo de serem praticantes de pequenos delitos. Há muitas palavras que precisam cair em desuso ou serem desconstruídas. O outro substantivo corresponde a uma comunidade localizada no bairro Serviluz de Fortaleza, essa localidade ganhou fama devido a Tita Tavares, fenomenal surfista, campeã de vários torneios, ainda reside no bairro e este que vos fala teve o prazer de conhecê-la durante o desempenho de minha profissão. Tida por muitos como uma das guerreiras do bairro, respeitada na comunidade, pessoa carismática. Apesar do currículo invejável, Tita nunca conseguiu o dinheiro que dizem que a fama traz. Sem mais circunlóquios, esse diálogo pode ser fictício, pode não ser, pode haver partes reais e partes de ficção, não vos direi.


A lenda Tita, infelizmente tá passando dificuldades

Carlim e Chumbado eram dois moradores do Titanzinho, quanto ao apelido do primeiro não há o que explicar, diminutivo de Carlos; o outro era gordinho na infância, diziam ser tão pesado que parecia feito de chumbo. Sem maiores delongas, os dois usam aquela erva, sim, aquela acolá que de vez em quando se fala em liberar, fica nessa, nunca sai, nem sei se sairá, questão polemica como o aborto, o que já gera outro assunto. Depois dessa digressão, vamos lá, jovens estavam de bobeira, esse tal de ensino remoto permite que o estudante tenha mais flexibilidade de horário, num desses momentos de descontração, foram para praia, são alunos da Tita, surfaram, depois botaram a fumaça na cachola, um eufemismo para dizer que os adolescentes consumiram Cannabis sativa, aquela planta herbácea da família das Canabiáceas (Cannabaceae), amplamente cultivada em muitas partes do mundo, a Cannabis é um gênero de angiospermas que inclui três variedades diferentes: Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis. Sim, eu enrolei, mas é isso que vós pensastes, é, ficou chato, foi só pra manter a conformidade de eu ter usado a segunda pessoa do plural anteriormente, vamos deixar de formalismos gramaticais, doravante manterei uma linguagem como a de outrora. Enrolei de novo, faço isso, sim, eles fumaram maconha à beira do mar. E quando começou o torpor de ambos, Carlim quebrou o silêncio:

- Parceiro, chega aí, olha o bagulho sinistro que pensei agora. Viado, pega a visão, olha essa imensidão – Carlim passeia a mão direita pelo horizonte, depois retorna o olhar perdido para o mar – imagina aí, quem fez isso tudo? Deve ter sido uma mente muito acima da nossa, tá ligado? – nota do autor: como os jovens possuem uma gíria muito peculiar, vamos aplicar um tradutor, deixar apenas as mais conhecidas pela grande massa. Obrigado. Voltemos.

- É isso aí, mó viagem – Chumbado completamente lombrado concordou, porém não sabe com o que acabara de chancelar. Poderia até ser alguma teoria absurda como supremacia racial que nosso viajado iria achar legal.

- Caralho, o cara fez isso aqui – Carlim aponta para o céu – aquilo ali – aponta para o mar – e isso aqui, pega um punhado de areia, e abre lentamente a mão deixando os grãos sentirem o rumo do vento. – Esse Cara não é só bom, é sensacional, espetacular.

- Lá – Chumbado repetiu apenas a última sílaba quase num espasmo cadavérico, ele estava de olhos fechados, sentia dormência no corpo e uma sensação de frescor atípica na região do bigode.

- Chumbado, o Cara aí meteu essa fita toda, fez o mundo, fez gente, pivete, o Cara ainda botou essa galera toda para pensar, sinistro, tá ligado?

- Tô – Chumbado estava chapado, olhos baixos, ele já possuía feições asiáticas, quando estava drogado ficava com um quê de coreano, claro que com todo o charme cearense. Somos um povo bonito.

- Meu irmão, se liga aí na treta, o Cara fez a gente com a capacidade de ter emoções, isso que nos faz vivos, cara

- Vivo – na verdade ele está em dúvida se está vivo.

- Olha aí, o Cara fez isso, fez a maconha maravilhosa que a gente usou – Carlim aproveita traga o cigarro, prende, solta a fumaça continuando o pensamento – e fez aqueles cachorros ali – direciona o dedo indicador para os animais correndo pela areia.

- Oh os cachorros – Chumbado conseguiu articular uma frase.

- Cara, oh, os cães estão brincando, correndo, e parece que estão se beijando olha que massa – de fato as mandíbulas dos semoventes se movimentavam como um beijo.

- Ei, maior amor aí – Chumbado estava voltando um pouco a si

- Muito massa o amor.

- Oh, são dois machos! – constatou Chumbado.

- Ah, que massa, sinal que o Cara lá fez isso, maravilhoso. – Carlim observa a cena de amor canino.

- Você acha isso maravilhoso? – lançou a pergunta dúbia

- O quê?

- Isso, de amar, os dois... e tal

- Amor entre homens?

- Hehehe – uma risadinha sem graça de Chumbado.

- Ei, mano, tu é? – Carlim dobrou o braço como se fizesse uma asa de galinha, deixou o pulso quebrar com a gravidade, mudou a expressão facial para imitar um meme, sim, um meme do Bob Esponja. Muitos jovens usam o meme do personagem da Fenda do Biquini em que o ser fictício está na mesma posição feita por nosso jovem do Titanzinho. Para facilitar, vou botar a imagem do meme. Ah, caso você não entenda esse meme, não desista de ler o texto, a juventude sempre inventa algo que as gerações anteriores não entendem, aliás isso representa que o tempo está passando, você está ficando velho, sim, não tem como fugir de Cronos, deus do tempo.


"ei, tu é?"

Chumbado gargalhou, sentou-se mais próximo do amigo, pensou em pegar na mão do cara e proferir alguma cantada, desistiu e perguntou algo complicado:

- Mas, Carlim, já pensou nisso?

- Não, Cara, não, curto não. Mas não fico bolado com isso, não, cada um tem que amar quem quiser, se liga? Tipo eu com a Nandinha, a gente se curte. Tamo vivendo o amor. Altos loves eu e a cumade. Hehe.

- Ah – Chumbado parecia desapontado, pediu o cigarro para fumar mais. Quem sabe para esconder a frustração por ter criado expectativa em ter um romance com o amigo. Enquanto uns afogam as mágoas em bebidas alcoólicas, ele preferiu se entorpecer com a erva danada.

- Ei, bora nessa? – convidou Carlim, levantou-se, bateu a areia e pegou a prancha, pôs debaixo do braço.

- Bora! – respondeu o dono do coração recém partido.

- Mais tarde me chama no Zap (nota do autor: forma que os descolados se referem ao WhatsApp) para gente jogar um Free Fire (nota: jogo de tiro e sobrevivência disponível para Smartphone. Cada partida dura cerca de 10 minutos e coloca seu personagem em uma ilha remota onde se enfrentam 50 outros usuários, todos buscando sobrevivência.) – Carlim propôs ao amigo, eles passavam muitas horas do dia se divertindo com esse jogo – te mostrar minhas novas roupas do meu personagem.

- É sal! – a voz saiu firme, no entanto havia rupturas em seu coração. – Vai dar certo – continuou o rapaz para não deixar qualquer rastro de ato falho. Cuidado que nos pequenos atos que se percebem grandes análises. Chumbado sabia disso e como sabia.




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