Retirar curativo
- Pedim Guimarães
- 27 de mar. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2022

Há uns dias estava na emergência de um hospital com suspeita de dengue, fiz alguns exames de sangue, para estancar a agulhada, a moça que coletou a amostra botou um curativo, fui para casa. Mais tarde, fui removê-lo, percebi que ele estava grudado em uns pelos do meu braço. Ao retirar o curativo, uma depilação forçada, me veio uma analogia formulada há uns anos: em alguns momentos a gente tem que encarar a vida como tirar esse band-aid, na hora dói, até bastante às vezes, mas depois passa.
Em alguns momentos é necessário realizar sacrifícios, ou se propor a passar por um momento doloroso em prol de algo melhor – que nem sempre é percebido, porque ficamos a pensar no presente, em como estamos imersos numa dor que parece que nunca cessará, contudo ela irá embora, afinal nada dura para sempre, como diz na canção famosa: “ Nothing lasts forever but the earth and sky – Nada dura para sempre, apenas a terra e o céu”.
Saber que nada dura para sempre é dos conceitos mais trabalhados no budismo, segundo os praticantes: “Nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas.” Esse pensamento pode conflitar com nossa idiossincrasia, como balança nossa de zona de conforto, prontamente tendemos a negar veementemente a profundidade de refletir sobre a impermanência de tudo. Muitos já caem em desespero ao se darem conta da finitude da vida, não só da sua, como de entes queridos. Outros aceitam esse aspecto, todavia passam a praticar o hedonismo sem limites, vivem o “carpe diem” literalmente. Talvez, ao pensar nisso, o leitor já conclua que “se tudo é finito, por que não buscar o prazer?”
Bom, se você achar que o sentido da vida reside nisso, tudo bem, afinal cada um traça sua jornada da melhor forma que lhe convém. Se me permite, vamos pensar um pouco no conceito de prazer, alguns pensadores já dissertaram sobre o paradoxo do hedonista, que como fracassamos na obtenção do prazer e da felicidade quando os procuramos deliberadamente. Søren Kierkegaard em "Ou isso, ou aquilo: um fragmento de vida" fala que "A maioria das pessoas persegue o prazer com tanto afã que o acaba deixando rapidamente para trás". William Bennett: diz que "A felicidade é como um gato, se tentar persuadi-lo a vir até você, ele o evitará; nunca virá. Mas se não prestar atenção nele e se ocupar da sua vida, encontra-lo-á a se esfregar em suas pernas e a pular em seu colo."
Voltando ao budismo, a felicidade não é algo que se encontra de maneira casual, tampouco é um estado momentâneo e efêmero, como advindo do prazer. A felicidade se constrói e é encontrada nas pequenas coisas, essas que podem ser aparentemente insignificantes. E o caminho para a plenitude passa por muitas turbulências, minha mãe diz que essa busca se assemelha a uma rosa, antes de chegar às pétalas e ao perfume há alguns espinhos.
E na sua jornada tudo colabora para seu engrandecimento espiritual, aquela decepção que você está passando possui caráter de aprendizado, não de punição, pode ser um momento ruim, mas ele vai passar. Nada dura para sempre apenas a terra e o céu.
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