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Saxofonista Fantasma

  • Foto do escritor: Pedim Guimarães
    Pedim Guimarães
  • 22 de mar. de 2021
  • 7 min de leitura


Saxofonista Fantasma


Manoel sempre foi conhecido por seus dotes artísticos, desde pequeno lhe enchem o saco para desenhar algo, na escola era comum professoras lhe pedirem para desenhar personagens famosos, ele fez vários de Cavaleiros do Zodíaco, o bastante para deixar de assistir a série aclamada pelos nerds com mais de trinta anos. Convenhamos que há mais saudosismo mesmo.


A maior fonte de inspiração artística de Manoel eram as capas de álbuns de bandas de rock, em especial as de Heavy Metal. Personagens de HQ lhe agradavam também, Marvel e DC nem tanto, adorava o Spawn, foi a porta de entrada para conhecer o trabalho de Todd McFarlane, famoso quadrinista americano e dono de uma empresa de “action figures”, um nome bonito que nerd usa para designar bonecos. Durante anos Manoel acompanhou o trabalho do ídolo, até que apareceu uma oportunidade de enviar um portfólio a empresa de McFarlane, que gostou da arte do brasileiro, logo pediram a este para confeccionar alguns modelos de heróis, deram-lhe liberdade de criação. Os executivos e o próprio dono adoraram, ofereceram uma oportunidade de emprego a Manoel.


Não demorou muito a Manoel arrumar suas malas e rumar para os Estados Unidos para ir trabalhar com Todd no desenvolvimento de “action figures”. A competência e o talento de Manoel logo lhe renderam um cargo de chefe da equipe de criação. Muitos bonecos foram criados, sucesso de vendas e críticas. E assim durou por muito tempo.


Tudo ia bem, até que veio a pandemia. Manoel recebeu uma proposta de Todd para trabalhar remotamente, o brasileiro ousou, perguntou se poderia atuar do Brasil, gostava das facilidades americanas, todavia sentia falta da comida de sua terra natal e poder usar a ducha higiênica, sim, usar somente papel higiênico o deixava muito triste. Não adianta ganhar bem, se sentir segura ao andar nas ruas, ele sentia muita saudade de se sentir bem limpo após defecar.


Da mesma forma que partiu ele chegou. Optou por se instalar na casa dos pais, a começar pela economia de aluguel, não havia problema em levar namoradas – um motivo pelo qual os caras pensam em sair do aconchego paternal, não precisaria se preocupar tanto com alimentação, acima de tudo estaria com seus amores.


Os primeiros dias foram calmos. Manoel conseguiu entregar seus projetos em dia. Produção em ritmo frenético. Inclusive motivo para ser elogiado pelo próprio presidente Todd, que estava pensando montar uma filial do escritório no Brasil, decerto não seria em Fortaleza, terra do nosso protagonista, mas se for em São Paulo, melhor, tem voo direto, Rio também, só de estar em seu país já era motivo de felicidade. Manoel saiu do Brasil em busca de melhores ares que os daqui, contudo percebeu que gostava da cidade, sentia saudades dos amigos, daquela comida gostosa feito com o amor regional, de ir para praia, sentir calor o ano todo, da família e, sobretudo, da ducha.


Eis que numa tarde ensolarada, Manoel estava concluindo um projeto, quando ouviu aquele som, estava longe, mas não tanto, logo reconheceu o icônico trecho da música “Baker Street” de Gerry Rafferty, aquele maravilhoso som de saxofone tocando ao crepúsculo da capital cearense ficou digno de uma filmagem, certamente teria muitas curtidas no YouTube. A cena perdeu seu esplendor após quarenta e cinco segundos, daí ao término ficou cafona. Foi inesperado, contudo ficou brega.


Se ficou chato naquele dia, mal sabia que era o começo de uma tortura, todos os dias, sim, nada de dias uteis, todos os dias, perto do entardecer, o saxofone tocado anonimamente propagava o icônico trecho da música “Baker Street” no bairro. Por se tratar do período da pandemia, não havia tantas conversas ao vivo sobre o tema, entretanto era um assunto recorrente nos grupos de WhatsApp, quem não residia na área ficava curioso.

- Como assim? – pergunta um amigo de Manoel no grupo de amigos.

- Cara, desse jeito, mais ou menos na hora do pôr do sol mesmo, porém não tem horário certo, não tem.

- E vocês desconfiam de algum prédio? – indaga uma amiga no grupo.

- Bom, tu acredita que parece que todo dia ele está em um local diferente?

- Não, é sério? – participa um membro que nunca havia digitado

- Quem é esse, Waldir Braz? – questiona a amiga que fez a penúltima pergunta.

- Também não conheço, mas Waldir, sim. Até houve dias em que parecia estar no prédio em frente ao meu, outros no de trás. Eu criei uma ficção aqui. Esse sax seria tocado por um fantasma recém desencarnado de um músico que iria fechar um contrato milionário de shows, porém não deu certo por causa da pandemia. Como vingança ele iria trazer dor e sofrimento aos vizinhos chatos que reclamavam quando ele praticava o instrumento. Depois dessa apareceram várias mensagens de risadas e palmas para a genialidade do autor.


Os dias passaram, os dias de confinamento deixando as pessoas mais apreensivas, índice de contaminação elevado, hospitais lotados, o som do saxofone em todo o entardecer deixando os moradores da região nervosos, paranoicos. Diz-se que uma mulher largou o marido com os filhos para ir ao Pará, recebeu uma proposta de um seguidor dela do Instagram para ter casa, comida e roupa lavada, se fosse apenas o efeito da pandemia, ela não aceitaria, mas pandemia e “Baker Street” todo dia, era demais. Comenta-se que ela conversava com um perfil chamado Boto Rosa Paraense.



Manoel criou um grupo do WhatsApp para residentes da região, decidiu recrutar pessoas que pudessem contribuir na elucidação desse caso. Começou com síndicos dos prédios, daí foram entrando alguns zeladores, porteiros, fofoqueiras, policiais, havia um que falaram ser da área de segurança de informática, depois descobriram ser um hacker procurado pela polícia federal de nosso país. Sempre havia um abestado para dar bom dia ao grupo, algumas mensagens políticas de um partido ou de outro, orações e alguns dias ficavam sem grandes novidades sobre o misterioso Saxofonista Fantasma.

- Gente, boa noite, acho que ele estava no meu prédio hoje.

- Mulher, tu tem certeza? Parecia no que fica de frente daqui.

- Mulher, e num é meu prédio não? Se faz de doida é, Roberta?

- Ah é?

- Vaila, tu até tinha um caso com o menino do 601! – mensagem que posteriormente foi apagada.

- Mulher, apaga isso, meu boy tá no grupo! – essa também foi apagada, apenas sete pessoas do grupo viram, talvez uma ou outra tenha tirado print da conversa, afinal muitos ali nem se conheciam mesmo. Que atire a primeira pedra quem nunca cometeu um vacilo semelhante em rede social.

- Moça do prédio Santa Luzia, oi, acho que ontem foi no meu, do lado do seu. – respondeu o síndico do prédio.

- Ei, e antes disso no meu que é em frente ao seu! – quase todos no grupo se pronunciaram em seguida. Os administradores do grupo pediram calma, pois no meio de tantas mensagens alguns lúcidos conseguiram enxergar que havia um padrão nas ocorrências. O profissional de inteligência, Saulo, pediu um tempo para organizar uma tabela. Demorou um bocado, ele fez a apresentação e já traçou o padrão, pessoal estava esperando só algo no Excel, o cara humilhou, o sujeito não é só bom, ele é espetacular. Inclusive colocaram uma figurinha em resposta a essa frase, sim, após a previsão do próximo destino do Saxofonista Fantasma. Muitos emojis de palmas e uma figurinha de um gato felpudo falando “vixi”.




Organizaram a tocaia, Manoel não possuía habilidades investigativas, sua participação no grupo se limitava a parabenizar os membros pela execução dos planos, no mais também era desprovido de força, tampouco possuía os macetes para imobilizar uma pessoa, o mais próximo que chegou de praticar arte marcial foi quando namorou uma atleta de judô, que tentou ensinar nosso artista, no entanto seu namorado a fez perceber que existem pessoas inaptas para praticar luta, ele foi a grande quebra de paradigma. Meramente por criar o grupo, Manoel foi presença votada unânime pelos participantes do grupo. Além do nosso curioso e da habitante do prédio previsto como próximo destino, participaram da equipe quatro policiais, um professor de Jiu Jitsu chamado de Avalanche, um vigia e ex-fisiculturista conhecido por Tião. E qual era o plano? Pegar. E depois? Acredita que ninguém do grupo, exceto o Hacker, comentou o que se faria com o Saxofonista Fantasma? Ele era um pessoa não muito bem vista no grupo, uma vez ele postou uma figurinha nojenta, alegou ter apertado sem querer, demorou quinze minutos para apagar, acredita-se que tenha sido de propósito.


Chegou o momento esperado, a turma estava dentro do prédio, criaram um grupo “Operação Caça Saxofonista Fantasma”. Mesmo com quatro policiais no grupo, foi Manoel que liderou com maestria toda a campanha. Se antes não havia tido participação, agora ele estava como o Batman na Liga da Justiça, o mais fraco, todavia consegue enxergar a situação toda e coordenar bem a equipe. Ele era muito fã do detetive encapuzado, a ponto de descobrir uma lista de melhores versões do morcego em um blog famoso e ir discutir com o autor do artigo. Percebam a audácia do companheiro, achar que o Michael Keaton merece a primeira colocação, fora isso, enquadrar mais perto do topo Adam West? Não. Tá repreendido em nome de Bruce Wayne.


Por incrível que pareça, tudo deu certo. Manoel se mostrou um exímio elaborador de planos. Talvez por ter assistido demais ao seriado “Lei e Ordem”, sim, todas as variações, cara viciado. A execução foi perfeita, o resultado totalmente inesperado. Perto do horário do pôr do sol, uma ambulância deixa o prédio. Uma senhora e um rapaz que parecia ser seu filho passaram por Manoel.

- A ambulância passou já? – perguntou a mulher a Manoel.

- Senhora, sim. – Logo que recebeu a resposta ela saiu em direção à portaria.

- Devemos desculpas a vocês, meu pai acabou de falecer e...

- Como assim? Sinto muito... – Manoel tentou consolar sem jeito.

- E meu pai era o Saxofonista Fantasma. Ele era um músico de jazz, radicou-se há anos aqui em Fortaleza, casou-se com minha mãe, adotou-me como seu filho legítimo. Infelizmente, devido a pandemia, vários shows dele foram cancelados. Ele teve um surto psicótico, saia escondido, subornava o porteiro desse prédio e dos demais para entrar nos prédios para tocar. Acredita?

- Moço, desculpa, sinto muito por sua perda. – Manoel e sua equipe se retiraram após um clima sepulcral baixar no recinto. O recém órfão de pai começa a subir até o segundo andar, desloca-se em direção a um apartamento, lá uma moça o esperava:

- Qual versão você contou? – em tom reprovativo.

- A que eu queria, ora. – E moveu os ombros em conformidade com a certeza de sua fala.

- E quando a verdade vier à tona? Que você é um motoqueiro do Ifood, que esteve em todos os prédios com uma caixa de som potente da JBL e botou para tocar “Baker Street” só de sacanagem?

- Aí eu promovo meu canal do YouTube, quem sabe até consigo alguma parceria, posso até tentar um Big Brother, que acha?

- Não sei, você... Isso tudo por uma brincadeira?

- Claro, tudo para animar.

- Não basta o confinamento? As mortes? Os infectados? As maluquices que o povo inventa por aí, tu ainda inventa essa esculhambação toda só para animar? É?

- Exatamente, meu amor.

- E quem era aquela senhora?

- Sei lá, foi coincidência.

- Babaca.

- Foda-se.

- Te amo, porra. – E rolou aquele beijo apaixonado, típico de Hollywood. Uma das declarações mais sinceras de amor é essa, “te amo, porra”. Eita.

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