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Velório

  • Foto do escritor: Pedim Guimarães
    Pedim Guimarães
  • 18 de nov. de 2019
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de ago. de 2023



Tento sintonizar outra estação mais amena, encontrar uma música que tolere. Meu gosto é bem amplo, tirando os lixos fonográficos – os gêneros que qualquer um em sã consciência não escute sem ingerir consideráveis doses etílicas. Não consigo gostar de MPB, tentei escutar Chico Buarque, Caetano, Gil, Raul Seixas... E outros por aí, intragáveis, náuseas. Nada contra quem gosta, apenas “cada um com seu cada qual”, como há no adágio popular. Porra, está tocando Legião Urbana, mudar rapidamente para que ela não perceba.


-Ei, pode voltar a estação! Percebi seu movimento, gaiato. Só quer escutar suas músicas? Nada disso! – Tive que atender, afinal controlo a maior parte do repertório, além disso ela está meio transtornada, não é prudente contrariar uma mulher nessas situações, aliás, evitem isso, mesmo que você ache que pode aguentar a investida, cuidado, talvez descubra que sua companheira tem mais garra do que mostra, então, amigos, cautela.


-Afinal, esse seu primo...


-Tio!


-Esse tio, desculpe, faleceu de que mesmo?


-Ah, na noite anterior ele estava mal, parece que telefonou pra minha tia, como eles estavam brigados, não deu atenção, nenhuma moral. Aí hoje recebeu a notícia. Parece que ouviram um barulho, os vizinhos dele, chamaram por ele, não respondeu, chamaram polícia, aí...


-E vocês foram lá?


-Infelizmente, cena deplorável, apesar de ele ter ficado isolado de todos, a gente tinha boas lembranças dele. Ele me levou muito pra passear, tomar sorvete, comer pipoca, essas coisas de criança, sabe?


-Sei. E aquilo da tua prima, foi verdade?


-Porra, foi ridículo! Todo mundo morrendo de chorar, eu mesma tava me acabando, aí ela vem falar da festa de uma ano da filha dela, que havia contratado buffet, falando de decoração... Saí para não falar grosseria para ela, e...


-Devia ter falado algo, não se manca ela? Doida é?


-Bom... Ah, vou deixar nessa estação aqui, adoro Los Hermanos!


-Loser Manos.


-Às vezes você se supera no quesito babaca.


-Tenho minhas virtudes – assim foi selado o silêncio entre nós, para piorar ainda tem essa tortura aos meus ouvidos, que grupo deprimente... Parece que não há fotossensor, vou acelerar. Talvez a causa de muito engarrafamento resida na lentidão dos motoristas. Especulações urbanas, enquanto dirigimos pensamos em vários assuntos, dos mais urgentes - como contas a pagar - a besteiras, como “em terra de Saci qualquer chute é voadora”.


Muitos carros no cemitério, “somos cabeça, tronco e rodas”, lembro da frase de um escritor, todavia não recordo o nome dele. Gosto de velórios, não por uma adoração ao fúnebre, um culto à melancolia, nada disso; neles pensamos quão efêmera nossa existência é. Algo simples pode trazer o ponto final para o livro da vida. Em vários casos a obra parecia longe de seu apogeu, “ele era tão novo”, “devia ter feito isso...”, então nos chega a ideia: a gente se preocupa com tanta coisa que não carece, o que realmente importa a gente relega. Opa, uma vaga.


- Teu tio era realmente querido.


- Você ia gostar dele. – de fato, parecia uma pessoa carismática, tanto pelas histórias, como pelo tipo de gente que compareceu ao velório: todo tipo, creio que toda camada da sociedade tenha tido seu representante, realmente toda, a amizade real não faz distinção de renda, faixa etária, credo, cor, orientação sexual. O finado possuía contatos diversificados.


-É, acho que sim.


Muita gente mesmo compareceu, até parentes mais distantes. Dentre eles, visualizo um homem gordo, ostentando uma pança muito redonda, cabelos grisalhos, olhar antipático, de longe já percebi o aspecto asqueroso dele, andar pesaroso.


- Quanto tempo, minha sobrinha, como você tá? – aproxima-se o homem mostrando indiferença pelo choro dela, como se não percebesse a gravidade da situação.


- Oi, tio, bem... E o senhor?


- Já se formou?


- Ainda não, tio, é que...


- Você tem que se formar logo, e...


- Tio – ela muda o foco do assunto – olha, esse é meu noivo... – ela me apresenta, afastando-se do caixão.


- Cuide bem da minha sobrinha!


- Tô cuidando – respondi sem tergiversar.


- Falo sério, rapaz, veja bem, eu já fui muito farrista, hoje me cuido, me alimento bem, tenho saúde...


- Tio, a gente vai ver como tá minha mãe – deu um abraço nele e saímos.


- Desculpa meu tio, é que...


- Besteira... achei até engraçado, que história de saúde é aquela mesmo? Com aquela barriga toda, ele...


- Por favor, não começa! – voltamos a perambular pelo local. Como de praxe em todo funeral: lágrimas e café. Até que percebo algo inusitado...


- Teu tio não era ateu?


- Sim


- E essa missa?


- Não começa... – como não achar estranho? Afinal, deveriam respeitar a crença do finado, não é? Parece que as famílias organizam as cerimônias para si, talvez para acalentar o desconforto causado pela partida do ente querido.


Como não sou adepto de celebrações cristãs, furtivamente me esquivo, antes que deduzam erroneamente, não possuo restrições com o rapaz que nasceu em Belém, apenas não me identifico com os ritos. Também não sou ateu, muitos associam não ser cristão com não crer em Deus, deduções erradas, porém até compreensíveis.


Durante o deslocamento visualizo uma jovem franzina com uma visível deformidade em sua perna andando com um garoto muito magro, para não dizer esquálido, com muitas espinhas em seu rosto, bem mais novo que a mulher, como se fosse filho dela. Pode ser alguma aluna do falecido. Todavia parecia bem abalada, enxugando lágrimas e fungando bastante, o que me deixou bem curioso. Em prol da curiosidade, voltei para a cerimônia fúnebre.


- Aquela moça ali – apontei para meu alvo de curiosidade – está chorando bastante, conhece?


- Meu tio se envolveu com ela, pelo visto esse menino é filho dela, minha tia comentou sobre isso. Não sabia disso...


- Teu tio era guerreiro, merece parabéns pela bravura. Aliás, pela inclusão.


- Você é terrível – apesar da constatação, ela mistura gargalhada com lágrimas, uma combinação inusitada de sentimentos, contudo plenamente justificável. – sabe o que é pior? Essa aí era disputada entre meus tios...


- Algo essa mulher deve ter... Não me diz que a disputa era com o teu tio em forma... Era?


- Com ele mesmo. – fiquei sem estruturas para caminhar. Algumas revelações nos deixam estáticos, assim fiquei: envolto em meus pensamentos sobre os acontecimentos que presenciei.



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